15.4.17

Livro: Outras meninas

Talvez seja uma covardia da minha parte, mas ainda não me sinto confortável em falar abertamente aqui no blog sobre pautas que dizem respeito ao feminismo. Na verdade, quanto mais eu tento me informar a respeito, mais vejo que sou muito ignorante sobre o assunto e tenho receio de falar algo para depois não saber justificar o que expus com propriedade...

Mas é claro que posso falar sobre coisas que vivi e vivo como indivíduo e mulher, então é gratificante poder usar este meu espaço para abordar questões como autoaceitação e autoestima quanto ao nosso corpo, a nossa imagem e até a nossa sexualidade na sociedade. Mais bacana ainda é poder começar a fazer isso a partir de uma obra maravilhosa como "Outras meninas", da talentosa Manu Cunhas!


O "Outras meninas" é uma obra feita a muitas mãos, na verdade; Manu flor começou esse projeto fazendo aquarelas incríveis, sensíveis ao que captava de depoimentos de mulheres de todas as idades sobre como se viam, junto com fotos de seus corpos nus. As ilustrações foram publicadas com seus respectivos depoimentos anônimos e, depois de cerca de um ano, o projeto do livro foi ao financiamento coletivo.

A experiência também causou impacto para a própria Manu, que teve a ideia de fazer o projeto ao se questionar por que conseguia admirar e gostar de desenhar corpos curvilíneos, gordurinhas, rugas e tudo mais, sem conseguir aceitar, contudo, as suas próprias "imperfeições".


Eu conheci o trabalho muito depois de todo o processo criativo e do financiamento coletivo, mas, vendo o livro, ficou muito claro o desejo da Manu em querer abraçar, dar voz e oportunidade de identificação a uma gama bem abrangente de mulheres - não apenas as magras ou gordas, as de seios pequenos ou fartos, mas também as negras, as orientais, as tatuadas, as LGBTQ, as idosas, as com deficiências físicas, as que já se aceitam super bem, as que sofrem de ansiedade, as que têm distúrbios alimentares, as que enfrentam depressão.


Por mais que seja uma coletânea com dezenas de depoimentos e, portanto, ali estejam fragmentos de dezenas de mulheres reais e diferentes entre si, senti que eu poderia ser todas e elas todas poderiam ser eu.

Sim, é muito possível que você encontre uma situação parecida com a sua sendo narrada numa daquelas lindas páginas, mas os relatos são tão palpáveis que você também é capaz de se colocar no lugar de outras mulheres que vivem outras realidades, patamares e (falta de) privilégios. A meu ver, esse livro é um tapa que põe à prova a sua capacidade de ser empático for real.


Chega uma hora que cansa. Chega uma hora que tudo o que eu poderia desejar é entrar em acordo com o amontoado disforme de carne a que chamam 'meu corpo'. (...) Sei também que a dor e a luta de muitas mulheres são de magnitude infinitamente superior à minha. Ainda assim, todo dia acordo e digo: 'Quero me amar, mas não tenho esse direito'.


Acho que não é leviano dizer que nenhuma pessoa foi ou é realmente poupada de julgamentos alheios e pressões sobre a sua imagem. Contudo, o fardo parece pesar mais para as mulheres em geral. Nesse sentido, considero que foi uma super sacada da Manu ter colocado por último o depoimento de uma moça que, mesmo parecendo se encaixar nos ideais atuais de beleza, também se sente vulnerável, violada, tolhida:

Criei coragem para contar a minha história por ver muitas vezes na internet, na rua, em todos os lugares, que eu sou o tipo de mulher que não pode abrir a boca porque a sociedade aceita a minha genética, as minhas curvas... aceita tanto que me tirou a liberdade sobre ele. Aceita tanto que, por mais de uma vez, na minha infância e adolescência tive meus gritos abafados, meu psicológico abalado, meu íntimo estuprado.


Caramba. Eu queria ter lido um livro assim já no início da adolescência, pois talvez pudesse ter me ajudado a ser um montinho de inseguranças menor do que sou hoje.

Por não ser boa em atividades físicas desde que me conheço por gente, já ficava em escanteio das panelinhas da turma na escola, mas o fato se agravava por ser mais robusta do que as demais meninas. As mudanças do corpo no início da adolescência e as já inerentes gordurinhas me faziam me sentir (mais) desengonçada; sem saber lidar com isso, eu escondi minhas inseguranças sob camisetas masculinas pretas e calças jeans largas até pouco antes de entrar na faculdade.

Nessa época, o meu corpo se estabilizou e comecei a ver algo de bonito no que estava refletido no espelho, mas até hoje não consigo aceitar a minha silhueta muito bem, o que atribuo parcela de culpa à minha mãe. É provável que ela nem saiba a influência que tem sobre mim e, portanto, sei que ela não tem esta intenção, mas cada vez que sai um se você emagrecer um pouco, vai ficar legal, é como se minha autoestima fosse enterrada com uma martelada bem dada...

Sabe, tem (muitas) coisas que a gente não precisa ouvir dos outros, porque já permeiam e rondam nossos pensamentos o tempo todo - chega ao ponto de que cada dia é uma vitória por continuarmos os enfrentando... Desculpem o desabafo, mas é como eu tinha dito: todo mundo tem uma história, mal ou bem resolvida, com autoestima e autoaceitação.


Nem tudo, porém, é desânimo. Para finalizar, deixo aqui um trecho dos depoimentos que muito me marcou e ajudou a pensar diferente; espero que essa reflexão também possa contribuir para uma nova perspectiva que permita seguir em frente:

(...) Mas existe uma outra parte que me olha nos olhos e enxerga todo o meu rosto, minhas curvas, meu formato e meus detalhes perfeitos. Essa é a metade que enxerga também a mulher forte que sou por dentro, protetora do mundo, 'defensora dos fracos e oprimidos', como diria minha mãe. Essa parte sabe que eu preciso me aceitar e enxergar minha própria beleza se quiser fazer diferença na vida de outras pessoas. Por isso, eu busco sempre proteger e amar as mulheres que me cercam: quem sabe eu não me aceito mais ajudando outras a se aceitarem?


Livro: Outras Meninas
Capa dura
Formato: 16,5 cm x 24 cm
180 páginas, papel couché
Compras, só no site da artista: Clique aqui

E tem mais trabalhos da Manu, olha só:
Facebook | Facebook (projeto Outras meninas) | Instagram


Gostaram da resenha? :)
Se tiver alguma sugestão ou crítica, pode deixar nos comentários!

E sim, a xícara estava vazia pois a minha cama era o que estava em jogo, hehe! :P

4 comentários

  1. Nossa, que indicação bonita Karupin! Acho que toda adolescente deveria ler MESMO. É uma fase de muitos questionamentos e dúvidas ~ saber que outras mulheres passam (ou passaram) pelo mesmo que você não tem preço. E que aquarelas maravilhosas!!!

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    1. Hoe, Camila! Tudo bem? :)

      Fico muito feliz que você tenha gostado da resenha, flor! ♥

      Sem dúvidas, é uma leitura muito bacana para essa (adolescência) e várias outras fases de muitas mulheres. As lindas aquarelas da Manu, por sua vez, parecem ora complementar, ora contar mais uma história além daquela no respectivo texto. :)
      Se tiver a oportunidade de adquirir, eu recomendo muito, de verdade :)

      Beijos, flor~

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  2. Que livro lindo, Karupin! Todas nós temos nossas inseguranças, mas ver um trabalho lindo desses já dá até uma esperança de melhoras :)

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    1. Hoe, Andrea! Tudo bem? :)
      Flor, que honra recebê-la por aqui! Seja muito bem vinda! ♥

      Esse livro é um abraço quentinho mesmo em todos os corações que procuram se entender no mundo, pra dizer que a gente não está sozinho e ajudar a seguir em frente; pra ir mesmo com medo. :)

      Beijos, flor~

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