23.6.16

5 Curiosidades sobre a imigração japonesa no Brasil


Junho é mês da imigração japonesa no Brasil desde 2005, mas, neste ano, passei a ter uma impressão diferente desse marco. Mesmo sendo o fruto de uma japonesa pimentinha e um brasileiro capricorniano, nunca cheguei a questionar qual era a real história por trás do texto ensaiado dos livros didáticos do Ensino Médio...

Quero dizer, por que um povo tão orgulhoso de sua história e de sua cultura passaria por uma viagem mega longa e precária de navio para chegar ao Brasil? Apenas pela promessa fajuta de riqueza rápida? E foi todo esse "paz e amor" quando chegaram? Com essas perguntas, comecei uma pesquisa rápida sobre a imigração.

Esse é um resumo muito resumido do que encontrei e tentei ser o menos chata possível na hora de escrever. Não tem nada inventado - tanto é que listei fontes lá embaixo para quem quiser dar uma olhada e se aprofundar também -, mas, no caso de aparecer um louquinho da cabeça, fica o recado do coração: pelamordasuavidaacadêmica, não use esse post como referência científica mas nunca, flw?


1. Por que os japoneses vieram?


Perguntinha básica que não tem uma resposta tão básica, pois é preciso entender como o Japão estava no final do Século XIX: estamos no meio da famosa Restauração Meiji (1867-1902, Rurouni Kenshin, alguém?) e o Imperador está correndo para superar o atraso de vida que o país sofreu durante o Xogunato, abrindo suas fronteiras comerciais a outros países e modernizando tudo que for possível, inclusive a produção agrícola.

Não bastasse essa brusca substituição da mão de obra, os pequenos produtores não poderiam mais honrar seus impostos com subsídios, apenas em dinheiro. Sem condições de pagar dessa forma, eles perdiam suas terras e seguiam por dois caminhos: trabalhar na propriedade, agora pertencente ao governo, para continuar morando ali, ou se mudar para os centros urbanos e incluir-se nas camadas mais pobres da sociedade.

Não demorou muito e os centros urbanos ficaram super populosos e insustentáveis. Além disso, os cofres públicos estavam secando com os investimentos nas guerras contra a China e a Rússia. Sem alternativa, o Japão deixou de penalizar a saída de conterrâneos do país (sim, era crime) e procurou fechar acordos para mandar gente a outros países e, assim, desafogar as cidades, bem como investiu em propagandas para convencê-los a buscarem essas "oportunidades". O primeiro país a recebê-los foi Estados Unidos, e aí você entende o por quê da concentração de japoneses no Havaí e na Califórnia; depois foi o Peru e então foi a vez do Brasil - mas essa nunca foi a primeira opção.

2. E por que o Brasil os queria?


Não fazia muito tempo que o Brasil tinha declarado a abolição da escravatura negra, então havia uma grande necessidade de mão de obra para trabalhar nas plantações de café. Até então, a política imigratória estava focada nos povos de origem europeia, principalmente alemães e italianos, mas eles não ficavam muito tempo nas fazendas em que chegavam, sempre procurando por melhores oportunidades; acabavam, então, trabalhando como parceiros ou contratistas.

As tratativas entre o Brasil e o Japão duraram cerca de vinte anos, marcados pelo grande receio de receber povos amarelos e até a dispensa por parte do governo brasileiro, devido a uma baixa sofrida no mercado de café. Contudo, com a proibição da Itália de mandar imigrantes para cá, em 1902, as negociações voltaram para valer, culminando naquela famosa passagem dos primeiros japoneses chegando ao Porto de Santos no Kasato Maru, em 1908.


3. Como os japoneses foram recebidos?


Falei que houve um grande receio do governo brasileiro, certo? Pois é, provavelmente não foi nessa época que o Brasil ganhou o título de "país acolhedor" - pelo menos, não o foi com os japoneses.

Para ter uma noção, no Brasil Império havia um decreto que proibia expressamente a vinda de povos de origem africana e asiática. A eugenia racial era um movimento tão forte na época que era perceptível em diversos setores, inclusive a política imigratória. Com a entrada mais que bem vinda de gente de origem europeia, pensava-se na sua progressiva miscigenação com o sangue latino, alcançando um status "superior"; misturar essa herança com negros e amarelos seria um "dano irreversível" a esse interesse maior - era o que se pregava.

Com a República, levantou-se a cancela para a entrada de chineses e japoneses, mas isso não quer dizer que a ideia da eugenia racial foi afastada - sério, umas cartas dos embaixadores brasileiros da época são de dar nojo. Uma vez nas plantações cafeeiras, a relação entre os japoneses e os fazendeiros brasileiros foi difícil, ora pela desilusão da promessa de riqueza rápida, ora pelas barreiras culturais e linguísticas. Cheguei a ler relatos em que se olhava com desconfiança e desdém seus hábitos "alienígenas", seja porque dormiam no chão ou porque ambos os sexos se banhavam juntos, em local público.

As coisas pioraram muito para os imigrantes com o estouro da Segunda Guerra Mundial, já que a Itália, a Alemanha e o Japão - surpresa - eram as potências do Eixo. No caso dos recém-chegados japoneses, a concentração em colônias e a dificuldade de assimilação social geraram muita desconfiança até do governo, que fechou a imprensa escrita em japonês, proibiu que tivessem acesso a informações sobre a guerra e organizou operações para desconcentrar certas regiões, como a Liberdade em São Paulo, expulsando famílias de suas casas.

4. Vinda proibida pela Constituição?


É, passamos por esse sufoco! Vamos ao contexto: a Segunda Guerra recém tinha acabado e os imigrantes eram ainda mais discriminados com a derrota do Japão. Como ainda não tinham acesso às notícias vindas diretamente do seu país, alguns japoneses do interior de São Paulo não aceitaram a ideia de que seu Imperador tinha perdido a guerra e condenaram à morte aqueles que assim acreditaram; o grupo autointitulado Shindo Renmei ("Liga do Caminho dos Súditos") foi responsável por 23 mortes e ferir quase 150 pessoas.

As notícias sobre o Shindo Renmei, com certeza, contribuíram para a posição social e política já antinipônica, mas o que chegou às discussões da Assembleia Nacional Constituinte de 1946 foi mais uma vez os discursos em prol da eugenia racial. Foi proposta a proibição da vinda de qualquer japonês sob qualquer circunstância, tendo em vista a necessidade de preservar as características de ascendência europeia na composição étnica da população. Como foi o placar? 50/50, pessoal! É, precisou de um voto de minerva do Presidente da sessão para vetar esse absurdo...


5. Eita! E como os japoneses foram "aceitos"?


Sabe aquela frase, enquanto você está dormindo, tem um japa estudando? Eu não gosto muito de ouvir essa brincadeira, mas talvez seja hora de rever isso, por ter se tornado um "senso comum" que ajudou a comunidade japonesa a conquistar seu espaço na sociedade brasileira.

Dá para se dizer que essa aceitação é bem recente, pois começou lá por 1960, quando muitas famílias japonesas saíram do campo para se fixar nos centros urbanos, principalmente de São Paulo e do Paraná. Os ramos em que passaram a atuar foram prestação de serviços e comércio de hortifrutigranjeiros, este com familiares que ficaram no campo como seus fornecedores diretos.

Enquanto os primogênitos ajudavam a cuidar dos negócios da família com os pais, tal qual a tradição mandava, aos irmãos mais novos cabia frequentar a escola e conquistar seu espaço na sociedade; era um investimento muito mais palpável do que sonhar com o retorno ao Japão naquela época. Muitos jovens escolhiam cursar áreas de Exatas por não ter de enfrentar problemas com o idioma, mas outros tantos foram estimulados a cursar Medicina e Direito em busca do prestígio social. Não demorou muito e já tinha muito japa se destacando em instituições renomadas, como a USP, a FGV e até o ITA.

De resto, com base numa pesquisa não oficial feita à época do início da chegada dos japoneses ao Brasil, dá para se dizer que, por mais que torcessem os narizes, os brasileiros sempre foram fascinados pela cultura (e disciplina) oriental. Assim sendo, a promoção de eventos culturais pelas colônias japonesas teve uma grande colaboração para se abrir o diálogo e a cabeça de ambas as partes para uma convivência muito mais harmoniosa e agradável.


Extra! Extra!


Se você tem parentes que emigraram, seja do Japão ou de outros países, para o Brasil, talvez seja possível encontrar o registro de imigração deles no site Family Search, um grande banco de dados digital com registros não apenas brasileiros, mas de vários lugares do mundo.

E não é propaganda nem balela, viu, gente? Eu fui atrás e encontrei os registros digitalizados da minha baa-chan e do meu jii-chan direitinho por lá, com fotos deles novinhos, inclusive! ♥ Vale muito a pena conferir de curioso mesmo e até resgatar alguns documentos da sua família, por que não, né? ;)

4 comentários

  1. Ohe, Karupin!!!

    Sim, nossos antepassados sentiram o quanto foi duro se estabelecer aqui (sofubo vieram antes da Segunda Guerra, e meus pais nasceram durante a mesma), serem aceitos na sociedade. Mesmo no tempo em que eu era estudante no Magistério, eu era tida como "a estranha no ninho" por eu ser a unica nikkei na cidade toda a cursar humanas. Mas aos poucos parece que esse estereótipo está se esvaindo (apesar daquelas piadas infames).

    Gostei do texto, e inclusive já dei uma espiada no site Family Search pra encontrar a família de ambos os lados <3

    Beijão!!!

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    1. Hoe, Kiyomi-chan!

      Ah, eu só posso imaginar o quanto foi difícil e ser grata pelo caminho árduo que se cruzou para alcançarmos a aceitação num relativamente curto período de tempo...

      Minha família veio pouco depois da Segunda Guerra e não sofreu tanto, mas foi se instalar numa pequena colônia no RS. Não ajudou muito o fato de termos nos mudado para cidades com fortes colônias italianas e alemãs, então os olhares voltados para nós, como se fôssemos alienígenas, era uma constante no nosso dia a dia. :/

      Muito obrigada por ter lido e pelo seu comentário, more! ❤
      Beijos~

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  2. Não sou a maior entendedora das histórias da imigração japonesa pro Brasil, mas cresci ouvindo histórias picotadas sobre como meus jiichans e baachans chegaram por aqui, como se casaram, todas contadas pelos meus pais e suas histórias de vida totalmente diferentes até se conhecerem. Lembro que quando saiu o livro Corações Sujos, já sabia de algo sobre a Shindo Renmei pelas histórias da louca vida cigana do meu jiichan Takahashi, e olha... acho que só estou aqui para contar história porque Deus quis, porque ele era da "turma do contra" nessa época xD a propósito eu tenho o livro, que pra mim é leitura obrigatória para quem se interessa pela imigração japonesa, é um ótimo material historicamente falando. Quando anunciaram o filme fiquei ansiosa e curiosa, hahaha e apesar do mesmo ser uma versão beeem romantizada baseada em todos os relatos que o Fernando Morais reúne no livro, no fim achei que deixou mais fácil para digerir a história.

    Quanto a esse site, também já conhecia! Achei o registro do meu querido jiichan Kimura ❤ (pai da minha mãe, já falecido) da parte dos Takahashi não achei muita coisa, mas enfim... acho válido e bem interessante. Outro site interessante que dá para fazer uma pesquisa do navio em que os imigrantes vieram na época, é no site do Museu da Imigração Japonesa do Bunkyo aqui de SP:http://www.museubunkyo.org.br

    Ahhh, e quando falam em imigração japonesa para o Brasil, lembro também do dorama "Haru to Natsu", aquele que o Tsubasa faz um sansei brasileiro com sotaque *omg huahauhauhua* ali mostra bem essa parte das famílias que se estabeleceram na agricultura e dos filhos que foram para a faculdade.

    E sobre o racismo com os orientais (que mesmo com todas as conquistas dos nikkeis na sociedade, é uma coisa que tenho pra mim, ocorre até hoje, de forma velada, mas ocorre sim), poderia ficar horas e horas discorrendo sobre, hahaha mas isso deixa pra uma próxima, porque eu ACHO QUE ESCREVI UMA MONOGRAFIA DE TCC AQUI. Gomen ne, hahaha xD

    Bjos!

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    1. Hoe, Tathy-chan!

      Meus avós só vieram para o Brasil depois que muita dessa poeira baixou, além de não terem se fixado nos locais onde rolou mais perrengue, mas sempre tive curiosidade em saber como foi a instalação em si dos japoneses por aqui. Por isso, achei muito bacana seus avós e familiares terem partilhado muitas dessas histórias com você!

      Ah, das referências que você falou, apenas não pude ler o livro de Corações Sujos porque ainda não consegui comprar. Está nas minhas orações para este ano! :)

      Huahuahua, por mais monografias nos comentários, eu voto sim, hein? :P

      Brigadão por ter lido e pelo seu comentário, Tathy-chan! ❤
      Beijos~

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