18.4.16

FlaFlu em Plutão


Mesmo passando mal - e, por essa razão, me dei ao luxo de tirar algumas pestanas durante a transmissão -, fiz questão de acompanhar o tal "momento histórico" da política brasileira do último domingo. Não é minha intenção expor aqui meu posicionamento político nem polemizar, pois desse farto e variado (mas talvez não tão delicioso) banquete todos podem desfrutar nas demais redes sociais, sejam quais forem. Aqui, o buffet é outro.

Pouco depois das onze badaladas noturnas, houve gritos comemorativos, assovios e rasgos de luz ofertados pelos inconvenientes rojões e fogos de artifício, baladinhas particulares com o acender e apagar de luzes dos apartamentos alheios, tilitares de panelas de alumínio que hoje seriam impossíveis de serem usados; uma comemoração digna de pênalti decisivo em final de Copa do Mundo.

Hoje, eu acordei e pensei: "... E aí?" Me lembrei de uma das dezenas de zoações que li no domingo, para a qual, depois de todo esse pão e circo, não se aceitaria menos do que amanhecer com o dólar a menos de dois reais, a gasolina mais barata e o Kinder Ovo a cinquenta centavos. Mas não foi o que aconteceu e nem é o que os economistas preveem, mesmo com o impeachment bem sucedido. O buraco é mais embaixo e quem se nega a ver isso veste a carapuça da ignorância e da imaturidade política. Não aprendeu nada com essa grande oportunidade - ou se recusa a fazê-lo.

Me pergunto se sou masoquista por fazer questão de eleger como trilha sonora diária as emissoras de rádio jornalísticas, já que me voluntario a ouvir impropérios como recortes de falas outrora proferidas por políticos da mais baixa categoria; a futurologia de professores e especialistas - que aceitam o convite para a prática, mesmo depois de tanto criticá-la; análises superficiais vindas de todos os lados; listas de perguntas rasas e idiotas que me fazem ora questionar o canudo de Jornalismo dos respectivos autores, além de entrelinhas que denunciam com mais ou menos propriedade a posição política desta ou da outra emissora.

Depois de mais um dia realizando as atividades domésticas em tão aprazível e acalorada companhia, minha mãe, alheia ao que eu ouvia na sua leitura de artigos esotéricos e espirituosos, me perguntou despretensiosamente:

- Filha, em uma palavra, como você descreveria o seu dia hoje?

Não costumo deixar as pessoas sem resposta, pelo menos aqui em casa não, mas me demorei por vários minutos em reflexão. Limpando um bibelô da minha estante, senti que, por mais que tenha sido bombardeada de informações sobre o que aconteceria depois do tal "momento histórico" de domingo, eu estava mais próxima de um recipiente vazio.

- "Falta de perspectiva"; não é uma palavra, mas é o que eu sinto agora, mãe.

A verdade é que, depois desse FlaFlu de um campeonato ocorrido em Plutão, a vida continua: temos de acordar cedo para estudar, trabalhar ou procurar por emprego, temos de colocar comida à mesa, temos contas a pagar, temos filhos, pais e parentes a zelar e temos de tentar colocar a cabeça sobre o travesseiro para atravessar mais outro dia.
A propósito, eu sei que situar o show de horrores em Plutão pode me deixar com a impressão de alienada, mas me faço esclarecer: enquanto o sistema político se resumir a um balcão de negócios, nada nas nossas vidas parece que vai mudar, seja qual for a figura iluminada que desça dos céus para receber a faixa presidencial - daí a minha sensação de que falta chão.

Contudo, de todas as análises, futurologias, críticas apaixonadas e informações passivas que ouvi hoje, talvez a passagem mais sábia tenha vindo da ainda despretensiosa fala da minha mãe, comemorando os pequenos feitos da sua jornada:

- A minha é "produção". :)

É isso aí, folks. Vamos caminhar para mais um amanhecer.

4 comentários

  1. ai, 10/10 esse texto <3
    uma reflexão simples, rápida e do jeito maravilhoso que você sempre escreve :')
    O finalzinho com sua mãe tbm <3 amei <3 muito!!

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    1. Hoe, Juh-chan!
      Mais uma vez, obrigada por ter lido e opinado sobre esse artigo-desabafo meu. Confesso que, como estava querendo desafogar um pouco no calor do momento, não sabia se estava falando coisa com coisa ou florindo demais... ^^"
      Mas ter você elogiando os meus textos sempre é uma honra, já que admiro a forma com que você escreve por demais! ♥

      Beijos e brigadão pela força, flor!

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  2. Eu me abstenho também em relação a todo esse "FlaFu em Plutão", confesso que tenho preguiça de todo esse debate na minha timeline das redes sociais. Prefiro evitar a fadiga nesse ponto. Mas se me fizessem essa pergunta, com tudo que vejo ultimamente, eu responderia "desgosto", porque olha, tá triste ultimamente... :(
    Certa está a sua mãe, viu.

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    1. Hoe, Tathy-chan! ♥
      Muito obrigada por ter passado aqui pra comentar! Eu preciso ir lá no seu que tô devendo comments em dois posts - quero comentar, mas não organizei as ideias direito, calma aí! XD

      Ah, sim. Eu não tenho exatamente preguiça, mas parte da minha abstenção é por questões profissionais, parte é porque simplesmente não vejo motivos para me expor se ninguém pediu a minha opinião. XD

      Mas evitar a fadiga é válido! Pra que destruir amizade com política, gente? Questões sociais, vá lá, precisamos discutir mesmo, mas aquela corja não merece um pingo da nossa consideração! Pronto, falei. XD

      Também concordo com a palavra "desgosto" - ou "tá foda" mesmo. XD

      Beijos, miga, e seja sempre bem vinda! ♥

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